Em setembro de 1976, durante os primeiros meses da ditadura militar na Argentina, um operativo clandestino das forças de segurança sequestrou dez estudantes secundaristas na cidade de La Plata, localizada a 60 quilômetros de Buenos Aires. Os jovens, com idades entre 14 e 18 anos, foram retirados de suas casas durante a madrugada e levados ao Pozo de Arana, um centro clandestino de detenção, onde sofreram torturas severas. Esse evento ficou conhecido como “a noite dos lápices”, e seis dos estudantes sequestrados continuam desaparecidos.
Na última terça-feira, três dos sobreviventes, Emilce Moler, Gustavo Calotti e Pablo Díaz, receberam o diploma honoris causa da Universidade Nacional de La Plata. A universidade também homenageou os familiares dos estudantes que nunca retornaram, incluindo Francisco López Muntaner, Maria Claudia Falcone, Claudio De Acha, Horacio Ungaro, Daniel Alberto Racero, Victor Treviño e Maria Clara Ciocchini.
A maioria dos jovens sequestrados era composta por ativistas políticos que participaram de diversas mobilizações, incluindo a luta pelo boleto estudantil. Após o sequestro, eles foram transferidos para outros centros clandestinos e, posteriormente, para prisões onde seu status começou a ser regularizado antes da libertação.
Em suas declarações, Moler enfatizou a importância da memória coletiva e a necessidade de transmitir a história às novas gerações, que têm diferentes questionamentos e linguagens. Ela mencionou que, apesar do acesso à informação sobre a ditadura, a compreensão dos fatos ainda é um desafio, especialmente com o atual governo de Javier Milei, que tem promovido discursos que banalizam os crimes do passado.
Pablo Díaz, um dos sobreviventes, refletiu sobre como “a noite dos lápices” se tornou uma história de amor para os estudantes atuais, destacando seu relacionamento com Claudia Falcone, uma das desaparecidas. Ele observa que a narrativa histórica muitas vezes é a porta de entrada para discussões sobre os conflitos sociais que os jovens enfrentam hoje.
Apesar de já ter se passado meio século, ainda existem muitas perguntas sobre o destino dos seis estudantes desaparecidos, e o silêncio que cerca esses eventos continua a persistir. Marta Ungaro, irmã de uma das vítimas, recebeu o diploma de seu irmão e fez um apelo por memória, verdade e justiça.
Os responsáveis pelo operativo de “a noite dos lápices” foram condenados a prisão perpétua em 2024, em um megajuízo que abrangeu múltiplos casos e um total de 600 vítimas. Verônica Cruz, secretaria de Direitos Humanos da Universidade Nacional de La Plata, destacou que o terrorismo de Estado não apenas resultou em desaparecimentos, mas também interrompeu trajetórias educacionais e obrigou muitos estudantes ao exílio.
Emocionada, Moler recebeu seu diploma da universidade, um reconhecimento que representa uma parte da história que lhe foi tirada quando tinha apenas 17 anos.




