A recente edição do programa Brasil no Mundo trouxe à tona a complexa interseção entre tecnologia, poder militar e controle territorial no cenário global. A discussão, mediada pela jornalista Cristina Serra, contou com a participação dos analistas Jamil Chade e Ian Boechat, além do historiador e cientista político Chico Teixeira, que analisou como as novas fronteiras científicas e militares estão moldando a correlação de forças no mundo.
O debate teve início com a movimentação de líderes de grandes empresas de tecnologia dos Estados Unidos, que pediram cautela no desenvolvimento da inteligência artificial (IA) generativa e autônoma. Esse apelo foi prontamente contestado por representantes da China, que criticaram a iniciativa como uma estratégia reminiscentes da Guerra Fria, destinada a conter o avanço de concorrentes fora da influência de Washington.
IA como arma geopolítica e o mito da ‘pausa neutra’
Chico Teixeira destacou que a inteligência artificial transcendeu seu uso como ferramenta operacional e agora integra o núcleo do poder estatal e militar. Ele argumentou que o pedido de “pausas” por parte das empresas ocidentais reflete uma ansiedade em relação à rápida evolução tecnológica da China. Segundo Teixeira, o investimento necessário para se manter na vanguarda tecnológica é exorbitante, e enquanto a economia chinesa possui um caráter estatal que permite sustentar projetos de longo prazo, as empresas ocidentais estão sujeitas à volatilidade do mercado financeiro.
O jornalista Jamil Chade comparou o controle da inteligência artificial à posse de armas nucleares, afirmando que quem detém essa tecnologia tem o poder de ameaçar ou dissuadir. Ele observou a formação de blocos tecnológicos, com os Estados Unidos unindo forças com países como a Índia, enquanto a China busca se aproximar de nações do Sul Global, incluindo o Brasil.
Teixeira também fez um paralelo com a regulação nuclear do século XX, mencionando a criação da Agência Internacional de Energia Atômica e como isso buscou congelar o status quo em termos de posse de armamentos nucleares. Ele alertou que o debate atual sobre IA repete essa dinâmica de controle e contenção.
Militarização espacial e a doutrina do ‘Domo de Ouro’
Outro ponto crítico discutido foi a declaração da Força Aérea dos Estados Unidos sobre a presença de sistemas de armas em órbita terrestre, o que levanta preocupações sobre a violação do Tratado do Espaço Exterior de 1967. Ian Boechat comentou que essa movimentação é uma resposta ao avanço de mísseis hipersônicos desenvolvidos por Rússia e China, que apresentam manobras imprevisíveis.
Chico Teixeira relacionou a militarização do espaço com a postura isolacionista dos Estados Unidos, destacando o projeto do “Domo de Ouro” que visa proteger o território norte-americano. Ele explicou que essa estratégia militar é uma tentativa de antecipar ameaças, especialmente considerando a geografia de ataque de mísseis russos.
Mar Vermelho e Ucrânia: a reorganização das linhas de fratura
Os participantes do programa também abordaram a situação no Mar Vermelho, onde as forças Houthi do Iémen estão estrangulando rotas marítimas, o que pode impactar o Canal de Suez e os preços internacionais de energia. Teixeira observou que a incapacidade da Arábia Saudita de lidar com essa insurgência mostra as limitações da dependência militar de aliados.
No contexto do conflito na Ucrânia, foi discutido um ataque recente de drones russos a um terminal ferroviário ucraniano próximo à fronteira polonesa, evidenciando a capacidade de Moscou de atingir suprimentos ocidentais. Teixeira ressaltou que a situação interna da Rússia está levando a um endurecimento da retórica de Putin em relação a qualquer envolvimento direto de países como a Polônia.
Brics, ONU e as ameaças à soberania brasileira
Para finalizar, o painel discutiu a recente cúpula dos Brics e a abertura da Assembleia Geral da ONU, enfatizando a resistência diplomática do Sul Global. Jamil Chade e Chico Teixeira caracterizaram a atual dinâmica como uma “guerra de trincheira”, onde o foco das nações em desenvolvimento é evitar que o multilateralismo seja eclipsado pela ação unilateral das superpotências.
Teixeira alertou para as pressões que a política externa independente do Brasil enfrenta, mencionando que a imprensa corporativa dos Estados Unidos já sugere intervenções sob pretextos vagos. Ele concluiu ressaltando a importância de afirmar a autodeterminação nacional e a soberania do Sul Global na ONU.
Assista à íntegra da edição do programa Brasil no Mundo com o professor Chico Teixeira na TV 247:




