Aumento de 100% no preço do gás liquefeito gera crise política e ameaça programa social Gás do Povo no Brasil

A volatilidade dos preços do gás liquefeito de petróleo (GLP), impulsionada pela guerra no Oriente Médio, gerou uma crise política para o governo de Luiz Inácio Lula da Silva, especialmente após um leilão da Petrobras que resultou em um aumento superior a 100%. Este evento levanta preocupações sobre o fornecimento de gás de cozinha para a população de baixa renda, beneficiada pelo programa Gás do Povo.

O aumento excessivo do preço do GLP, que representa entre 75% e 90% do volume vendido no Brasil, levou Lula a criticar a Petrobras e a afirmar que pretende anular o leilão, que contraria a orientação do governo de não elevar os preços do gás. O presidente expressou sua indignação durante uma entrevista, questionando como o povo poderia arcar com tais custos.

Além disso, Lula reiterou sua intenção de que a Petrobras recompre a refinaria de Mataripe, que recentemente aumentou o preço do GLP em 15%. A venda da refinaria ocorreu em 2021, durante o governo de Jair Bolsonaro, para o fundo soberano Mubadala, dos Emirados Árabes Unidos.

A pressão sobre o governo aumentou após as distribuidoras solicitarem um reajuste no preço do GLP fornecido ao programa Gás do Povo. Um executivo do setor revelou que o aumento de preços resultaria em um custo adicional de pelo menos R$ 200 milhões por mês para as distribuidoras.

O programa Gás do Povo, que garante recargas gratuitas de botijões de gás de 13 kg para famílias de baixa renda inscritas no CadÚnico, é considerado uma das principais iniciativas sociais do governo atual. Com um orçamento inicial de R$ 3,57 bilhões por ano, a previsão é que esse valor aumente para R$ 5,1 bilhões até 2026. A crise atual pode limitar ainda mais os gastos do governo em um ano eleitoral.

A situação se agravou após a Petrobras interromper o fluxo do Estreito de Ormuz e realizar um leilão que vendeu 70 mil toneladas de GLP a preços até 100% superiores aos da tabela da estatal. Esse leilão representa cerca de 11% do volume total de GLP comercializado mensalmente no Brasil, com o preço do botijão de gás subindo de R$ 33,37 para R$ 72,77, um aumento de 117% em relação ao preço de referência.

Os impactos negativos do aumento são exacerbados pelo fato de que o preço do gás de cozinha estava congelado desde novembro de 2024, o que intensifica a reação negativa ao reajuste. Além disso, as distribuidoras ameaçam deixar de fornecer GLP ao programa social caso não haja um aumento na remuneração.

Debandada

Antes do leilão, a Abragás e o Sindigás já haviam solicitado ao Ministério de Minas e Energia a atualização dos preços de referência. O presidente da Abragás alertou que, se medidas urgentes não forem adotadas, o programa pode enfrentar uma debandada de revendedores.

Após as críticas de Lula, o Sindigás emitiu uma nota evitando se manifestar sobre preços, ressaltando a pressão que os preços do petróleo e seus derivados estão sofrendo devido a conflitos globais, o que pode impactar os custos do GLP.

As distribuidoras enfrentam um custo adicional significativo com o aumento do preço do GLP, e a margem de lucro é limitada. Mais de 80% do mercado nacional de GLP está concentrado em quatro grandes empresas, o que pode dificultar a adaptação a esse novo cenário.

Um executivo do setor expressou sua preocupação com a escassez de gás e a necessidade de repassar os custos, afirmando que o governo precisa aumentar o orçamento do programa Gás do Povo. Caso contrário, as revendedoras podem se afastar do programa, comprometendo sua eficácia.

Pedro Rodrigues, especialista no setor de gás, comentou que a crise de preços do GLP reflete falhas de governança e interferência política na Petrobras. Ele destacou que subsídios podem ser justificáveis por razões sociais, mas precisam ser bem direcionados e financiados adequadamente.

Rodrigues também alertou que intervenções de preço podem gerar distorções adicionais e que é mais fácil culpar a Petrobras do que assumir os custos orçamentários necessários para oferecer subsídios ou reajustes.

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