O banco Digimais, sob o controle do bispo Edir Macedo, fundador da Igreja Universal do Reino de Deus, enfrenta uma crise financeira severa, com um patrimônio líquido negativo estimado em R$ 8,5 bilhões. Essa situação alarmante levanta preocupações para o Banco Central, o Fundo Garantidor de Créditos (FGC) e o mercado financeiro, especialmente após a liquidação do Banco Master em novembro de 2025.
O Digimais opera de maneira semelhante ao Banco Master, apresentando um patrimônio inflacionado de forma artificial para melhorar seus balanços e emitir mais Certificados de Depósito Bancário (CDBs). O banco oferece taxas atrativas, que chegam a 125% do CDI, utilizando a garantia do FGC como estratégia para atrair novos clientes. A corretora ID, responsável pela administração dos fundos do Digimais, conta com ex-executivos do Banco Master entre seus sócios e administradores.
Irregularidades graves foram apontadas, incluindo a venda de carteiras de crédito fraudulentas, uma prática que já havia levado à liquidação do Banco Master. Um exemplo específico é o fundo EXP1, que desembolsou R$ 650 milhões em fevereiro de 2024 por carteiras de crédito consignado do Digimais. Após atrasos na entrega de documentos, uma auditoria internacional identificou que 22 mil dos 55 mil contratos eram falsos, totalizando R$ 500 milhões sem lastro, sendo que esses créditos pertenciam originalmente ao Banco Master e à gestora Reag.
O Digimais mudou de auditoria três vezes em 2024, removendo ressalvas que indicavam problemas sérios, como na mensuração de cotas de fundos de direitos creditórios. Fundos como Alpha, Omega, Abel, Delta e Tabor têm ativos de alto risco, com empresas não listadas em bolsa e demonstrações financeiras não auditadas.
No ano anterior, o Banco Central exigiu que Edir Macedo injetasse R$ 250 milhões no banco para reforçar seu caixa. Entretanto, o bispo retirou R$ 2 bilhões da Record, que estavam aplicados no Digimais, agravando ainda mais a situação financeira da instituição. Desde 2022, o Banco Central pressiona pela venda do banco, mas as tentativas de negociação envolvendo figuras como Maurício Quadrado e Tércio Borlenghi Junior foram rejeitadas pela autoridade monetária.
A gestão do Digimais passou por mudanças significativas, começando com João Urbaneja, que não tinha experiência no setor financeiro, seguido por seu filho, Thiago Urbaneja. Aldemir Bendine, ex-presidente do Banco do Brasil e da Petrobras, assumiu a presidência após exigência do Banco Central, apesar de seu histórico de prisão em 2017 na operação Lava Jato por suspeitas de corrupção.
O Digimais foi criado a partir da aquisição do Banco Renner, antigo banco das Lojas Renner, em 2009, com controle total adquirido em 2020. Desde 2022, a instituição opera com prejuízo, tendo registrado uma perda de mais de R$ 740 milhões naquele ano.
O FGC já sofreu perdas significativas com o Banco Master, totalizando um rombo de R$ 52 bilhões, e agora analisa a situação do Digimais, discutindo possíveis intervenções ou vendas. O mercado observa que a influência do partido Republicanos no Congresso e da bancada evangélica no Centrão pode impactar as decisões técnicas do Banco Central.
Em resposta, o Digimais divulgou uma nota afirmando que seu plano visa fortalecer o patrimônio e reestruturar passivos de longo prazo, com o objetivo de garantir a sustentabilidade operacional e uma sucessão de controle que preserve a integridade da instituição. O foco atual é aplicar a senioridade da alta gestão para organizar a gestão financeira e entregar resultados aos controladores ou futuros compradores.
Com informações da revista Piauí.




