Avós assumem papel central no cuidado e apoio financeiro a netos no Brasil, revela estudo

Aos 77 anos, Izede Zago compartilha sua experiência de vida cercada pela família, especialmente cuidando de seus netos. Ela prepara marmitas para seu neto Theo, de 21 anos, que as leva ao trabalho, permitindo que ele economize em alimentação e proporcionando satisfação para a avó. O mesmo se observa na casa de Irani Calegari Silva, de 70 anos, e José Alberto Pereira da Silva, de 76, que apoiam financeiramente a neta Rebecca Baldon, de 20 anos, em sua faculdade de arquitetura e em atividades como idas à academia.

Esses relatos refletem uma mudança crescente na dinâmica familiar no Brasil, onde avós estão assumindo papéis ativos no cuidado e na responsabilidade financeira pelos netos. Um estudo da data8, intitulado “Tsunami Prateado”, revela que a proporção de brasileiros acima de 50 anos que cuida de alguém aumentou de 37% para 57% entre 2018 e 2026. Além disso, 36% desses cuidadores apoiam financeiramente seus filhos, muitas vezes para ajudar na criação dos netos.

O estudo, que entrevistou 3.298 brasileiros, destaca que, com o aumento da longevidade e mudanças no mercado de trabalho, os avós estão se tornando cuidadores permanentes, ao invés de serem apenas cuidados. Lívia Hollerbach, coordenadora da pesquisa, observa que as famílias estão cada vez mais encolhidas devido ao envelhecimento populacional, especialmente nas classes mais baixas.

O psicólogo Alisson Guiotto aponta que fatores como o aumento do custo de vida e as longas jornadas de trabalho dos pais contribuem para que os avós assumam responsabilidades financeiras e de cuidado. Um estudo adicional da Noz Inteligência, realizado em parceria com o CineMaterna, revela que 31% das mães com filhos de até dois anos contam com a ajuda das avós, destacando a importância dessa relação intergeracional.

Mirian Rodrigues, presidente do CineMaterna, enfatiza que as avós muitas vezes servem como um “porto seguro” para as mães, e a convivência entre gerações traz benefícios tanto para os avós quanto para os netos. A presença dos avós pode melhorar a saúde física e emocional deles, refletindo em bem-estar psicológico e qualidade de vida.

Izede expressa orgulho em cuidar de Theo, e Irani compartilha a alegria de ter Rebecca em sua vida, considerando-a uma amiga. No entanto, a realidade pode ser diferente nas periferias, onde os avós frequentemente mantêm suas famílias com renda de aposentadorias ou trabalhos informais, mas não recebem o mesmo cuidado em retorno. O estudo “Velhices Periféricas” revela que muitos avós nas periferias continuam a trabalhar por necessidade, enfrentando um descompasso entre viver mais e ter qualidade de vida.

Especialistas, como Milene Dellatore, destacam que os avós têm se tornado pilares financeiros nas famílias, ajudando com moradia, alimentação e educação, enquanto Beny Fard acrescenta que a expectativa de vida mais longa permite que os avós permaneçam fisicamente aptos para assumir esses papéis. Apesar dos benefícios emocionais da convivência, os especialistas alertam para a importância de limites e divisão de responsabilidades familiares.

Por fim, Lívia ressalta que viver mais deve ser gerenciado de maneira a garantir qualidade de vida, e os avós desempenham um papel crucial nesse novo cenário familiar.

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