Primeira pessoa no Brasil recebe tratamento experimental de longa duração para HIV

Pisci Bruja, uma mulher trans de 37 anos, se tornou a primeira pessoa no Brasil a receber doses experimentais de um tratamento de ultralonga duração para o HIV, com aplicação a cada quatro meses. Após 13 anos tomando comprimidos diários, ela fez sua última dose em 21 de setembro e iniciou o novo tratamento no dia seguinte.

O estudo, conduzido pela farmacêutica GSK, investiga a eficácia de dois antirretrovirais injetáveis, cabotegravir e rilpivirina, em comparação com um esquema de tratamento já aprovado em outros países, que consiste em aplicações a cada dois meses. O objetivo é avaliar se aumentar o intervalo entre as doses para quatro meses é seguro e eficaz.

José Valdez Rodrigues, infectologista e principal investigador do estudo no Brasil, destaca que o novo esquema pode reduzir o número de visitas ao serviço de saúde, passando de seis para três ao ano. O tratamento não é uma vacina, mas sim uma injeção que controla a multiplicação do vírus HIV.

A pesquisa contará com cerca de 564 participantes de diversos países, incluindo Brasil, Estados Unidos, Argentina e Japão, com conclusão prevista para setembro de 2029. No Brasil, os participantes estão sendo recrutados em sete centros de pesquisa, com previsão de 63 a 77 brasileiros envolvidos.

Matheus Evedo, enfermeiro de 24 anos e um dos selecionados, faz parte do grupo que receberá injeções a cada dois meses para comparação. Ele expressou sua surpresa e felicidade por participar do estudo, ressaltando a importância da pesquisa na busca por melhores tratamentos.

Rodrigues, com 32 anos de experiência em pesquisas sobre HIV, observa que a busca por medicamentos de ação prolongada é uma tendência crescente, podendo beneficiar grupos como pessoas em situação de rua e aquelas que viajam frequentemente, ao eliminar a necessidade de tomar medicamentos diários.

Atualmente, o tratamento oferecido pelo Sistema Único de Saúde (SUS) no Brasil é baseado em antirretrovirais orais diários. O SUS ainda não disponibiliza tratamentos injetáveis de longa duração, como os que estão sendo testados, embora a eficácia de tratamentos a cada dois meses já tenha sido comprovada em outros países.

O Ministério da Saúde do Brasil afirmou que, embora existam 30 opções terapêuticas diárias já aprovadas, não há discussão sobre a incorporação de novos tratamentos injetáveis no SUS. Rodrigues sugere que o governo poderia avançar na aprovação de tratamentos a cada dois meses, já reconhecidos por agências regulatórias internacionais.

O custo dos medicamentos é uma preocupação, com o tratamento testado custando cerca de US$ 43,8 mil por ano nos Estados Unidos. Pisci enfatiza a necessidade de acesso a tratamentos modernos, acompanhados de políticas públicas que ajudem a reduzir os custos.

A ativista e os participantes do estudo esperam que suas experiências contribuam para um futuro com menos medo e mais possibilidades para pessoas vivendo com HIV, destacando que receber um diagnóstico não é o fim da linha.

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