Cometa 3I/ATLAS revela origem incomum com alta abundância de água deuterada, segundo estudo astronômico

Astrônomos que utilizaram radiotelescópios para examinar um cometa interestelar revelaram novas informações sobre sua formação. O cometa, denominado 3I/ATLAS, chamou a atenção mundial ao cruzar nosso sistema solar em julho, sendo apenas o terceiro objeto interestelar observado na região. Ele começou a deixar nosso sistema solar em dezembro.

Uma pesquisa inicial, publicada em 23 de abril na revista Nature Astronomy, sugere que o cometa se originou em um local distinto do nosso sistema solar. As observações foram realizadas com o Atacama Large Millimeter/submillimeter Array (ALMA) no Chile, logo após o cometa passar perto do Sol.

O ALMA permitiu a medição do deutério no cometa, marcando a primeira vez que esse isótopo de hidrogênio foi detectado em um objeto interestelar. O autor principal do estudo, Luis Eduardo Salazar Manzano, destacou que a abundância de deutério na água do 3I/ATLAS é mais de 40 vezes maior que a encontrada nos oceanos da Terra e mais de 30 vezes maior que a de cometas do Sistema Solar.

Essas descobertas podem ajudar os pesquisadores a entender melhor as condições do sistema planetário de origem do cometa, além de oferecer insights sobre a Via Láctea antes da formação do nosso sistema solar. Salazar Manzano afirmou que objetos interestelares são como cápsulas do tempo que trazem material de outros sistemas planetários.

Um objeto antigo e incomum

A água, ou H₂O, normalmente contém dois átomos de hidrogênio e um átomo de oxigênio. A água deuterada, por sua vez, possui um nêutron em cada átomo de hidrogênio, tornando-a mais pesada que a água comum. O estudo da abundância de água deuterada no cometa 3I/ATLAS pode indicar seu local de formação.

Salazar Manzano mencionou que o enriquecimento em deutério ocorre em nuvens moleculares frias no espaço interestelar, geralmente durante a formação de sistemas solares. Os pesquisadores acreditam que o sistema planetário de origem do cometa era muito mais frio que o nosso, com temperaturas abaixo de 30 Kelvin.

Pesquisas anteriores indicaram que o 3I/ATLAS pode ter até 11 bilhões de anos, muito mais antigo que o nosso sistema solar. A água dentro do cometa provavelmente se formou antes de sua estrela hospedeira, mas o cometa se originou de um disco protoplanetário de gás e poeira.

Os pesquisadores acreditam que o 3I/ATLAS se formou nas regiões mais externas do disco protoplanetário, preservando sua abundância de água deuterada. As novas descobertas estão alinhadas com observações anteriores que encontraram uma alta abundância de dióxido de carbono no cometa.

A utilização do ALMA foi crucial, pois o radiotelescópio pode observar o Sol em um ângulo mais próximo do que telescópios tradicionais. A equipe estudou o cometa após ele se aproximar a 203 milhões de quilômetros do Sol, onde o gelo do cometa se transformou em gás detectável.

Embora o H₂O não tenha sido detectado, a presença de água deuterada indicou que o 3I/ATLAS é um objeto incomum. Astrônomos acreditam que, apesar da dificuldade em determinar a origem do cometa, ele pode fornecer informações valiosas sobre o universo.

O Observatório Vera C. Rubin, no Chile, deve detectar objetos interestelares com mais frequência, permitindo que os pesquisadores comparem a abundância de água deuterada em outros cometas. O astrônomo Dr. Theodore Kareta observou que a presença de deutério no cometa é como impressões digitais que revelam sua origem e o estado da galáxia há mais de 10 bilhões de anos.

Kareta enfatizou que a evolução da galáxia afetou a formação de cometas e, consequentemente, a formação de planetas, o que torna esses objetos tão interessantes para a pesquisa astronômica.

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